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Inovação em pagamentos na África antecede o Pix

Nos últimos anos, o Pix se destacou como uma verdadeira estrela no cenário internacional dos meios de pagamento. Ele é frequentemente mencionado como um exemplo de sucesso na modernização financeira. No entanto, é interessante notar que soluções similares já estavam sendo desenvolvidas em outras partes do mundo, muito antes do Pix chegar ao Brasil. Especialmente em diversos países africanos, iniciativas inovadoras começaram a surgir para enfrentar um desafio comum: oferecer serviços financeiros para milhões de pessoas que estavam fora do sistema bancário tradicional. Essas experiências ajudaram a redefinir o conceito de inclusão financeira e mostram que as grandes inovações nem sempre vêm das economias mais ricas.

O Pix voltou a ser assunto nas redes sociais recentemente, gerando debates políticos e econômicos. Isso trouxe à tona a relevância do sistema no dia a dia dos brasileiros. Ele não só facilita pagamentos instantâneos, como também reduz custos tanto para consumidores quanto para empresas. Além disso, aumentou a concorrência entre as instituições financeiras e acelerou a digitalização da economia no país. Embora o sistema brasileiro seja visto como uma referência mundial, sua história está entrelaçada a um contexto mais amplo de transformação financeira que começou em várias partes do mundo, principalmente na África.

O Quênia e a Revolução do M-Pesa

Quando falamos de inovação financeira na África, o M-Pesa é o exemplo mais famoso. Lançado em 2007 pela Safaricom, em parceria com a Vodafone, o M-Pesa surgiu para resolver um problema significativo: o acesso limitado aos bancos para milhões de quenianos. Naquela época, abrir uma conta bancária era um processo caro e burocrático, especialmente para quem vivia em áreas rurais.

O que faz o M-Pesa ser tão especial? A plataforma permite que os usuários depositem dinheiro em agentes autorizados e façam transferências apenas com mensagens de texto. Isso transformou os celulares em verdadeiras carteiras digitais, muito antes dos smartphones se tornarem comuns. Com o tempo, o M-Pesa foi se expandindo e hoje oferece uma variedade de serviços, como transferências entre pessoas, pagamento de contas, compras em lojas, recebimento de salários, microcrédito e até produtos de poupança.

O impacto econômico do M-Pesa é impressionante. Atualmente, mais de 35 milhões de quenianos usam a plataforma, o que representa uma das maiores coberturas de serviços financeiros móveis do mundo. Estima-se que cerca de 90% dos adultos no Quênia utilizam algum tipo de pagamento móvel, tornando o país um exemplo global em inclusão financeira.

Desafios do M-Pesa

Mas o sucesso do M-Pesa também trouxe desafios. Com o crescimento rápido, surgiram questões sobre o poder concentrado da Safaricom, que opera tanto no setor de telecomunicações quanto no de pagamentos digitais. Essa concentração gerou discussões sobre a privacidade dos usuários, já que o volume de informações financeiras processadas pela plataforma trouxe à tona preocupações sobre a proteção de dados. Além disso, os especialistas começaram a questionar se uma única empresa deveria ter tanta influência em setores tão fundamentais da economia.

Outro desafio foram as fraudes digitais. Assim como em muitos outros países, o aumento dos pagamentos eletrônicos no Quênia também veio acompanhado de golpes virtuais. Apesar dessas preocupações, a maioria dos especialistas concorda que o M-Pesa desempenhou um papel crucial na inclusão financeira de milhões de pessoas.

A Nigéria e o NIBSS Instant Payment

Se o M-Pesa revolucionou a inclusão financeira, a Nigéria trouxe uma solução que se aproxima mais do modelo do Pix, chamada NIBSS Instant Payment (NIP). Criado em 2011 pela Nigeria Inter-Bank Settlement System, o NIP foi projetado como uma rede nacional integrada entre bancos, fintechs e outras instituições financeiras.

Assim como o Pix, o NIP permite transferências em tempo real, liquidação instantânea e operação contínua. Essa estrutura fez do NIP uma das infraestruturas de pagamentos instantâneos mais avançadas da África. Em 2024, por exemplo, o sistema processou cerca de 10,5 bilhões de transações, movimentando mais de 1,07 quatrilhão de nairas, equivalente a aproximadamente 700 bilhões de dólares.

No entanto, também na Nigéria, o aumento do uso de pagamentos instantâneos trouxe preocupações sobre segurança. Reguladores começaram a implementar medidas mais rigorosas em relação à segurança cibernética e à proteção ao consumidor, além de monitorar operações suspeitas.

A Etiópia e o Telebirr

Outro projeto interessante no continente é o Telebirr, lançado em 2021 pela Ethio Telecom. Esse sistema surgiu em meio a reformas econômicas na Etiópia e, em pouco tempo, conseguiu mais de 50 milhões de usuários em um país com aproximadamente 120 milhões de habitantes.

O Telebirr tem como objetivo ampliar o acesso da população aos serviços financeiros digitais. Ele permite transferências de dinheiro, pagamento de contas, compras online e até o recebimento de benefícios. Para o governo etíope, essa plataforma é uma estratégia para acelerar a inclusão financeira e estimular o crescimento econômico.

Entretanto, o modelo etíope enfrenta críticas, como a forte participação estatal na operação e a baixa integração com instituições privadas. Além disso, há preocupações sobre a concentração de dados financeiros sob controle do governo.

Lições da Experiência Africana para o Brasil

As experiências do Quênia, Nigéria e Etiópia mostram que não há um único caminho para o sucesso dos pagamentos digitais. Cada país desenvolveu soluções adaptadas às suas próprias necessidades. O M-Pesa transformou celulares simples em ferramentas financeiras, enquanto o NIP criou uma infraestrutura nacional de pagamentos instantâneos parecida com o Pix. Por sua vez, o Telebirr busca ampliar a inclusão financeira em uma das maiores populações da África.

O que une todos esses projetos é a intenção de aumentar o acesso aos serviços financeiros, diminuir barreiras e incentivar a participação econômica de milhões de pessoas.

Italo Pastorini

Redator interno do portal Direito do Brasileiro.

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